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Ano Novo Judaico

ROSH HASHANÁ 5773 (ANO NOVO JUDAICO)

“…e o homem foi feito alma vivente…” – Bereshit

Neste dia 16 de setembro, após o entardecer, as mesas postas com toalhas perfumadas, adornadas de pães e pratos especiais, doces, vinho, maçã e mel. A luz da vela, acesa por uma mulher consciente de seu papel no processo de humanização, iluminando os rostinhos das crianças ávidas pela doçura de uma vida plena e as faces dos anciãos marcadas de uma esperança que se renova a cada ciclo. Todos cantam, todos se abraçam no abraço humano, feito de calor e amizade, força e vida e todos ouvem o som do Shofar. É Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico de 5773!

Mas, ainda que comemorado apenas entre nós judeus, não é apenas uma Festa Judaica. É uma Festa da humanidade. Uma Festa em que se comemora o dia em que a Alma do Universo olhou um estranho ser na terra, nas regiões horizontais, nos vazios mesopotâmicos; um ser apavorado com os ruídos bestiais e com a escuridão noturna, escondido nos buracos em que se protegia dos uivos macabros, da densidade e das sombras – e o tomou pela mão…

Neste dia, a Ruach haElohim (o elemento feminino do Eterno) o tomou pela mão e o colocou em pé, olhou nos seus olhos esbugalhados, nos seus lábios cortados e aproximou-se dele, beijando-o nas faces e soprando sobre ele aquele fogo de vida. E, assim, do encontro dessas forças da “Criação” com o estranho ser, e do beijo e do perfume do vento, surgiu Adam, a Humanidade, feita de pó e sangue, de fogo e vida, de medo e coragem, de fome e inteligência. Desse encontro surgiu “ish-ishá”, ou seja, a Humanidade com suas faces masculina e feminina, com a força e com a poesia, com a guerra e com a música.

E seus olhos se abriram para enxergar, e seus ouvidos para escutar. E, erguendo-se, forte e vertical, suplantou o medo, venceu as bestas, transpôs obstáculos e foi dando nomes para tudo, porque tudo era seu. E cavou buracos no chão para dominar a semente. Ali estava ela, a Humanidade, criadora da beleza, porque são os olhos dela que criam a beleza. Ali estava ela, criando parâmetros de convivência, porque ela cria o Direito.

E o homem (ish) e a mulher (ishá) nesta Humanidade se olharam e inventaram brincadeiras, e descobriram que seus corpos estavam envolvidos com um tecido finíssimo de pele humana, capaz de responder ao toque, ao beijo, ao sopro. E eles se olharam e viram que suas pupilas se dilatavam quanto mais se olhavam e que seus lábios se abriam quanto mais se tocavam. E a mulher (ishá) tomou o homem (ish) pela mão e, cantando, ensinou-o a ser gente e a descobrir segredos, a experimentar, a se mover. Agora ele era completamente Adam (terra e sangue). E ele, o homem, abriu a sua boca para criar poesia intensa, chamando-a Havá (mãe da vida).

Foi o primeiro Rosh Hashaná, o dia em que a Humanidade começou a ser a imagem e a semelhança do Eterno e, desde então, o homem deixou de rosnar para cantar. Desde então, ele deixou de fugir para enfrentar. Ele deixou de se esconder para dominar. E trocou a cópula, instintiva, pelas expressões de amor e ternura, e deixou de cobrir a mulher para envolvê-la num manto de intensidade, fogo e vida. Foi em Rosh Hashaná que a humanidade se espelhou se descobriu!

Shaná Tová (Feliz Ano Novo), em Elul de 5772, Véspera de Rosh Hashaná 5773

 

© Pietro Nardella-Dellova. Professor da Universidade Federal Fluminense e Escritor