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O ritmo do tempo, a preclusão e o tumulto

Tudo, conforme a natureza, tem um tempo. Tempo de ser semente (ainda que potencialmente uma árvore), tempo de germinar, tempo de desenvolver, robustecer-se, transformar-se em árvore, produzir frutos e, neste ritmo, viver de forma natural.

O ser humano, ou melhor, a pessoa, não foge ao ritmo. Há um tempo transformador, natural – um devir (movimento transformador conforme ensinou Heráclito). Não é possível lutar contra este tempo sem prejuízos terríveis ao processo de formação. E, sem ser tão simples, mas compreensível, o processo refere-se ao corpo, às emoções, à formação de idéias e, sempre, às relações interpessoais.

Seria tão absurdo exigir de uma semente o fruto “em potencial” quanto de uma criança, a leitura, compreensão e interpretação de uma obra, digamos, de Homero ou, mais atual, de Machado de Assis. As crianças começam a aprender com o lúdico, com os jogos e, depois, com letras (às vezes com carinhas inseridas nas letras), com livros curtos ilustrados. É o processo, o ritmo e o movimento de formação.

Mas, o que se percebe é o bombardeio de informações, sejam virtuais ou não, sobre pessoas. Os vestibulares (das Faculdades sérias que fazem vestibular) exigem obras da Literatura que nunca foram escritas para jovens adolescentes. Por exemplo, Dom Casmurro. Tanto é verdadeiro que tais obras já sofreram alterações substanciais no sentido de diminuir-lhes as páginas. São resumos de obras. Tudo bem, o meu foco não é bem este!

Voltando. Tudo é suscetível de um ritmo, de uma organicidade temporal -  e espacial. Então, as pessoas são bombardeadas com informações sem fim – e sem critério. Especialmente as crianças e adolescentes que estão, lógico, em flagrante processo de formação. Formação que não pode ser retardada (no sentido de obstaculizar) como foram a das gerações anteriores. Os pais e outros responsáveis pela formação dos mais jovens, escondiam, em décadas anteriores, fases do processo de formação, criando verdadeiros monstros (quando adultos) cheios de desajustes físicos, emocionais, intelectuais e, por desgraça conseqüente, interpessoais. Estas últimas gerações foram sendo formadas a golpes de picareta!

Houve subtração de fases importantes do aprendizado e da formação anteriores, impondo às pessoas uma formação com vazios e, usando um termo técnico, criando preclusão (impossibilidade de realizar determinado ato em seu tempo processual), situação especialmente vivida por famílias e escolas do período ditatorial militar (tempo de destruição completa da educação e formação).

Porém, se é verdade este furto (diria, roubo) da formação anterior, não é menos verdade haver, hoje, igual furto (diria, ainda, roubo). Naquele período, houve a subtração, retirando-se as fases de formação. Agora, há a subtração impondo todas as fases a um só tempo. Explico!

A falta de critérios e de compreensão das fases de formação e o excesso de informações, além da oferta de experiência cria outro agravante, semelhante ao outro, isto é, a subtração da fase pela quantidade excessiva. Também, aqui, dou um nome técnico: “tumulto”. Tumulto que, em processo, significa a prática de atos processuais fora do tempo ou com antecedência. Enfim, tanto a preclusão (forçada) quanto o tumulto (excesso) levam a uma deformação cujos efeitos saltam aos olhos, sejam no corpo, no emocional, no intelectual e, outra vez, nas relações interpessoais.

Tornou-se comum, por exemplo, antecipar a sensualidade de uma criança (erotização), ou seja, de quem não tem nem corpo nem emocional para ler, compreender, interpretar e responder à sensualidade. Sensualidade que em um adulto é maravilhosa, em uma criança, torna-se monstruosa!

Não deveria ser difícil compreender que para cada experiência – e a vida é feita de experiências – há um certo aparato integrado para responder. Os hebreus, os gregos e os romanos sabiam disso. Mas, os professores, educadores e pais que estudam os hebreus, gregos e romanos não o sabem.

Hoje li em um encarte infanto-juvenil, do Jornal Folha de São Paulo, duas matérias lado a lado, uma sobre a performance de um jovem de (de 12) com seu skate e outra sobre heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade de artistas e músicos (todos com mais de 30) e suas aventuras nestes campos (sexo). Acho que houve algum “tumulto” nesta matéria (diria, roubo de alguma fase!)

Pietro Nardella-Dellova